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Fábio César dos Santos

Ele fala tudo sobre a Medicina do Estilo de Vida

Desde que iniciou sua carreira, há 23 anos, o cardiologista, formado pela Universidade de Taubaté, busca a prevenção como forma de tratamento. “Isso norteou todo o meu caminho”, afirma o medico, que segue os conceitos da Medicina Integrativa, Funcional e Personalizada, e que representa como presidente fundador o movimento da Medicina do Estilo de Vida no Brasil.
Com currículo invejável, Fábio César dos Santos, Fellow em Cardiologia pela ‘Duke University Medical School e pós-graduado em Nutrologia, pela ABRAN – Associação Brasileira de Nutrologia, segue na busca pela integralidade do ser humano, unificando corpo, mente, espírito e comunidade. Em sua formação ainda destacam-se diversos cursos de extensão, como o ‘Mind and Body Medicine’, da Harvard Medical School, e Functional Medicine, do grupo americano Institute of Functional Medicine (IFM).
Além de presidente/fundador da Abrasfev – Associação Brasileira de Saúde Funcional e do Estilo de Vida, diretor da Clínica Saúde Plena, em Santo André, e médico do grupo P4B Healthy, em São Paulo, o médico ainda representa como diretor nacional a ‘True Health Initiative Coalition’, ação global para reforma em saúde baseada nos conceitos de Medicina do Estilo de Vida (Lifestyle Medicine).

Por Marianna Fanti

Merc News – Dr. Defina o conceito Medicina Estilo de Vida.
Fábio César dos Santos – De acordo com o conceito estabelecido em 2009, pelo ACLM – Colégio Americano de Medicina do Estilo de Vida, trata-se do “uso terapêutico de intervenções em estilo de vida, baseado em evidências, para prevenção e tratamento de doenças relacionadas ao estilo de vida, em um cenário clínico. Ele fortalece os indivíduos com conhecimento e habilidades para fazer mudanças efetivas endereçadas à causa das doenças”.

MN – Cite alguns princípios deste segmento.
FCS – Sim, 80% das doenças crônicas não transmissíveis podem ter seus caminhos modificados e serem prevenidas se hábitos forem alterados e condutas preventivas tomadas ativamente. Devemos entender mais sobre dieta, nutrientes em nosso organismo, a importância do movimento e exercício, sobre o controle do estresse e do sono, sobre a vida em comunidade e sobre as ações do meio ambiente em nosso organismo. Esses são pilares básicos e fundamentais dessa visão em saúde.

MN – Como e onde surgiu a Medicina Estilo de Vida e quando chegou no Brasil?
FCS – Platão já dizia: “é o grande erro de nossos tempos que, no tratamento do ser humano, os médicos separem o espírito do corpo”. Mas, enquanto entidades mundiais que se uniram para resgatar essa visão preventiva como melhor tratamento, estamos falando de poucos anos atrás. O ACLM e a Sociedade Européia de Medicina do Estilo de Vida (ESLM) estão liderando esse movimento mundialmente. Nosso grupo nasceu de mãos dadas com esses grupos internacionais e fundamos, em abril de 2015, a Abrasfev.

MN – Quais as principais diferenças e formas de abordagem da Medicina Estilo de Vida para a medicina tradicional?
FCS – Não gosto muito dessa separação, pois Medicina é uma só. Talvez possamos falar que a visão é diferente. O mundo caminhou para uma visão muito reducionista em várias áreas, e o mesmo aconteceu com a Medicina. Quando pensamos em um problema de saúde, imediatamente tentamos dar um nome para esse problema e encontrar um remédio específico para ele. Existem grandes artigos da literatura médica mundial que fazem críticas a esse sistema de uma pílula para cada doença. Nosso sistema está completamente ‘medicalizado’, e, muitas vezes, os pacientes nem consultam os profissionais de Saúde, pois dizem já saber o que têm e o que devem tomar. Nosso sistema orgânico é demasiado complexo para uma visão tão simplista. Isso levou a um número excessivo de medicamentos e procedimentos, muitas vezes desnecessários, acompanhados de um alto número de efeitos colaterais indesejáveis. O JAMA – uma das publicações médicas de maior prestígio, trouxe uma matéria ressaltando esse problema em 2000, dizendo que esse excesso estaria levando esses procedimentos à terceira causa de mortalidade nos Estados Unidos, atrás apenas das doenças cardíacas e câncer.

MN – Como o senhor avalia a adesão e aceitação dos pacientes à Medicina Estilo de Vida?
FCS – Os pacientes estão acostumados a remediar seus problemas com medicamentos e/ou procedimentos imediatos, o que muitas vezes é absolutamente necessário, mas, todos adoram quando percebem que os caminhos metabólicos que ligam saúde e doença podem ser modificados com ações preventivas e que eles podem fazer parte do processo. É claro que hábitos não mudam da noite para o dia e o entendimento desses caminhos não é tão simples assim. Por isso precisamos de três coisas fundamentais nessa história; a primeira delas é tempo para atuar com esses indivíduos, munindo-os de informações e executando condutas preventivas; em segundo lugar, de um trabalho multidisciplinar com profissionais de diferentes áreas de Saúde atuando juntos com o mesmo objetivo, que é a melhora desse indivíduo; e a terceira é trazer o indivíduo/paciente para participar dessa ação preventiva.

MN – Quais os principais benefícios que ela traz para a saúde?
FCS – Comentei anteriormente que 80% das doenças crônicas não transmissíveis podem ter seus caminhos modificados e até serem prevenidas, se hábitos forem alterados e condutas preventivas forem tomadas ativamente. Essas doenças fazem parte daquelas que mais acometem homens e mulheres: doenças cardio e cerebrovasculares (infarto e derrame); câncer de diversos tipos, doenças degenerativas e diabetes. Existem pesquisas médicas contundentes mostrando que essas mudanças podem ser melhores do que remédios em alguns cenários. Um grande exemplo é o estudo DPP – Diabetes Prevention Program (Programa de Prevenção do Diabetes), que demonstrou melhores resultados no programa em mudança do estilo de vida do que no uso de metformina – droga para controle de diabetes.

MN – Podemos dizer que é um estilo alternativo à medicina tradicional?
FCS – Não vejo como visão ‘alternativa’, vejo como visão fundamental para ajudarmos efetivamente a saúde dos indivíduos. Do que adianta dar um remédio para um paciente, se ele continua ingerindo uma série de produtos quimicamente inflamatórios para ele? Outra questão é: que tal atuarmos com nutrientes que possam ter ações semelhantes à desse remédio, sem os efeitos colaterais? Isso é possível em muitos casos.

MN – Quais práticas e mudanças de hábitos envolvem a redução de doenças crônicas?
FCS – Entender e intervir sobre dieta e sobre os nutrientes em nosso organismo, sobre a importância do movimento e exercício, o controle do estresse e do sono, a vida em comunidade e sobre as ações do meio ambiente em nosso organismo são pilares básicos fundamentais dessa visão em saúde. Quando avaliamos nossos pacientes de uma forma mais pormenorizada, podemos, por exemplo, repor uma vitamina ou mineral que está em falta no organismo de forma mais ativa como forma de prevenção e/ou tratamento. Podemos modificar rotas metabólicas que levem a doenças, corrigir caminhos e aumentar a expectativa de saúde.

MN – Já que é uma área multidisciplinar, quais profissionais são envolvidos nesse processo?
FCS – De forma geral, todos os profissionais de Saúde devem estar envolvidos nessa visão. Vai depender da análise de cada indivíduo de forma personalizada, e a associação está aberta para afiliação de profissionais de diferentes áreas: médicos das mais diversas especialidades, nutricionistas, educadores físicos, psicólogos, dentistas, biomédicos, etc.

MN – Comente sobre o Lifestyle Summit Brazil – Simpósio Internacional em Saúde Funcional e de Estilo de Vida, realizado em 2015, e sobre a edição a ser realizada em 2016.
FCS – Esse é o evento representativo do movimento Lifestyle Medicine, aqui no Brasil. Ano passado aconteceu em São Paulo, no Centro de Convenções Rebouças, em novembro, e contou com 350 inscritos para assistirem a 30 palestras de renomados nomes na área de Saúde, sempre com foco em estilo de vida. A abertura contou com a participação do Dr. David Katz, meu colega médico e presidente do ACLM. O evento foi sensacional. Muito elogiado por toda a preocupação não só com o teor científico das palestras, mas, com alimentação saudável e cuidados com meio ambiente por meio de copos, pratos e talheres biodegradáveis. Em 2016 faremos novamente em São Paulo, nos dias 5 e 6 de novembro.

MN – “Genética não é destino”. Explique essa afirmação.
FCS – Gosto muito dessa expressão e a uso com frequência. No dia a dia, mostrar aos pacientes a influência que o meio exerce em nossa genética, transformando-a para melhor ou para pior é fundamental. Chamamos isso de ‘epigenética’. O que realmente define nosso destino são nossas atitudes e o meio em que vivemos.

MN – Esse estilo propõe, entre outras coisas, uma reforma em saúde que passa por toda sociedade – escolas, crianças, alimentação, hábitos, faculdades de saúde, etc. Comente sobre esta reforma na área da Saúde.
FCS – Existe um grupo mundial envolvido nisso chamado True Health Coalition(www.truehealthinitiative.org), que tem como grande objetivo implantar mudanças em todo o sistema de Saúde. Uma reforma que pretende, por meio das ações em Medicina do Estilo de Vida, modificar os índices de adoecimento populacional. O trabalho está em fase de planejamento e, como diretor nacional dessa iniciativa mundial, pretendo trazer muito disso para ser apresentado no Brasil.

MN – De que maneira a Medicina Estilo de Vida pode mudar os malefícios que o estilo de vida agitado impõe às pessoas atualmente?
FCS – Diagnosticando e intervindo de forma adequada, no controle do estresse. Apesar de vivermos em um mundo agitado, onde o tempo é fator limitante, não podemos perder nossa essência humana, nossas relações, nossa vida em comunidade. Não podemos descuidar do nosso corpo comendo qualquer coisa, sem pensarmos em valor nutricional, vivendo na inércia da falta de exercício físico e mental adequados. Como profissionais de Saúde adeptos a esse conceito, nossa meta é programar com cada paciente as escolhas de vida para uma saúde melhor.

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