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Harry Horst Walendy Filho

O superintendente fala sobre os novos caminhos da Santa Casa de Mauá

Aos 54 anos, Harry Horst Walendy Filho é o superintendente da Santa Casa de Mauá, cargo que ocupa há cinco anos na instituição que, recentemente. completou meio século de atividades. Porém, sua relação com o Hospital começou quando ainda era menino, mais precisamente aos seis anos de idade, tempo em que começou a frequentar o local quase que diariamente, na companhia do pai, um dos seus fundadores.
Harry cresceu e formou-se homem, dentro da Santa Casa; portanto, conhece a história de cada metro quadrado. Aos 18 anos passou a fazer parte do quadro de irmãos e a partir daí entrou como suplente da Mesa Administrativa, depois secretário, vice-provedor, provedor por 12 anos e, no momento que ele menos esperava, superintendente. “Para mim é uma missão, sinto-me privilegiado por ter convivido com todos aqueles que fundaram a Santa Casa e ainda ter contato com alguns que estão vivos – apenas três”, afirma.
Formado em Contabilidade e pós-graduado em Mercado Financeiro, embora sua vida sempre tenha sido ligada de alguma forma à instituição, durante 20 anos ele manteve seus negócios na área de Contabilidade e Consultoria, trabalho que desenvolvia à parte da instituição.
Nesta entrevista à MercNews, Harry fala sobre o plano diretor do Hospital, que prevê os próximos dez anos da Santa Casa e sobre as obras iniciadas em abril último, que deram início às reformas e que serão totalmente entregues no prazo de três anos, e foram dividas em três etapas: a primeira, com prazo de entrega até dezembro próximo; a segunda, que envolve a relocação das partes administrativas e a transformação das antigas áreas administrativas em áreas sociais de atendimento e a terceira, o levantamento do prédio de dez andares, além da criação de unidades externas espalhadas pela cidade.

Por Marianna Fanti

MercNews – Com qual objetivo foi fundada a Santa Casa de Mauá?
Harry Horst Walendy Filho – A entidade foi fundada em 1963 por um grupo de amigos com objetivo de se contar com um hospital em Mauá. Naquela época fazia menos de dez anos que a cidade tinha sido emancipada e não havia um hospital no município; as pessoas tinham que ir até Santo André de condução, ou mesmo a pé, para serem atendidas em um hospital, essa foi a primeira intenção. A segunda foi a de ter uma Santa Casa para atender os mais necessitados, aqueles que não tinham acesso ao serviço público de saúde.

MN – Como a instituição é gerida?
HHWF – Se eu pudesse criar uma similaridade, diria que a entidade funciona como um clube. Temos os associados, que são os irmãos que fazem parte – hoje por volta de 64 -, e esses irmãos elegem uma diretoria a cada dois anos, que no caso da Santa Casa chama-se Mesa Administrativa, por questões históricas. Nessa Mesa Administrativa são eleitas as figuras do provedor e o vice-provedor que, por questão histórica, são o presidente e o vice. Em Portugal, quando surgiram as Santas Casas, criou-se a figura do provedor, que era a pessoa responsável, durante o mandato, por prover recursos para a entidade. Essa pessoa tinha que buscar doações e verbas para manter o hospital.

MN – Quem mais participa da Mesa Administrativa?
HHWF – Temos as figuras do primeiro e segundo secretários, primeiro e segundo tesoureiros e dos mesários, que completam essa diretoria, à qual chamamos Mesa Administrativa. Abaixo dela vêm os estabelecimentos mantidos, que é o Hospital Imaculada Conceição, o plano de saúde da Santa Casa e podemos ter outras entidades, como asilos e creches, mantidas pela irmandade. Há projetos para isto, mas eles ainda não existem.

MN – A entidade atende o SUS?
HHWF – Em alguns casos. A Santa Casa pode atender o SUS somente se for devidamente contratada por um gestor de Saúde Pública para o fazer, e só pode prestar os atendimentos para os quais foi contratada. Hoje, por exemplo, é contratada pelo SUS para partos, diárias de UTI adulto e neonatal e algumas internações clínicas; poderia fazer cirurgia ortopédica, por exemplo, também, mas não pelo SUS, porque não foi contratada para isto. Além disso, como o SUS causa prejuízo à entidade pelo conhecido subfinanciamento da tabela, a Santa Casa tem que buscar receita em algum lugar. Então, ela passou a atender outras operadoras de saúde, particulares e manter seu próprio plano de saúde, para gerar receita adicional. Hoje ela é uma entidade jurídica, privada, filantrópica, e de interesse público. Não distribui resultado, mas reinveste todo eventual superávit na própria entidade. Importante salientar que os dirigentes e os irmãos não têm, e não podem ter rendimentos.

MN – Quanto a Santa Casa representa de ajuda ao município em número de atendimentos médicos?
HHWF – Hoje Mauá tem quatro hospitais – dois totalmente privados, um público e nós, que somos mistos; no entanto poderíamos contribuir muito mais para o SUS do que contribuímos hoje, porque hoje temos uma verba de apenas R$ 380 mil mensais como teto de atendimento e, mesmo assim, para atender gastamos mais de R$ 500 mil devido à diferença entre custo e tabela. Temos outras possibilidades, como cirurgias, mamografia, ultrassom tomografia, etc, que poderíamos oferecer ao SUS, mas o município não compra porque alega dificuldade financeira. Hoje desafogamos o município principalmente quando falamos em maternidade, temos feito quase 80% dos partos da cidade.

MN – Comente sobre a infraestrutura da Santa Casa.
HHWF – É bastante completa, somos um hospital bem equipado. Temos todas as especialidades médicas e cirúrgicas; a UTI adulto; UTI neonatal – que é raridade na região -; praticamente 500 funcionários; mais de 115 médicos; 110 leitos – sendo 10 UTI adulto, oito neonatal -, e o restante são leitos de utilização (berçários, pediatria etc); tomografia; mamografia; ultrassonografia; raio x; três salas de cirurgia e estamos finalizando a quarta. Realizamos aproximadamente 20 mil atendimentos por mês, além das 600 internações mensais. 58% das internações são do SUS, o restante de planos e convênios. Desse restante, 85% dos atendimentos são convênios – 40% Santa Casa, 45% outros convênios. Hoje, a Santa Casa atende 54 operadoras.

MN – Quando a Santa Casa implantou o próprio convênio?
HHWF – Veio antes da criação da Agência Nacional da Saúde -ANS, quando percebemos que havia um nicho de mercado de muitas pessoas que estavam no SUS, mas tinham capacidade de ter um plano de saúde, embora não pudessem comprar um de mercado. Então criamos um intermediário, onde oferecíamos de cobertura os serviços que já existentes. Na época não tínhamos cirurgia cardíaca, por exemplo; então, daríamos toda assistência ao usuário e, caso ele necessitasse de uma cirurgia cardíaca, ele faria pelo SUS. Com isso tiramos o pessoal do SUS, enquanto podíamos cobri-los com uma mensalidade mais baixa. Mas, nos dois anos seguintes a ANS regulamentou o setor e instituiu o rol mínimo de procedimentos e, desde aquela época, a Santa Casa passou a cobrir todos eles. Então, se você perguntar qual a diferença entre a SulAmerica e a Santa Casa, te respondo: o preço e a rede de credenciados, porque tudo que a
SulAmerica, Bradesco, Amil, Santa Helena, etc têm que cobrir, a Santa Casa tem a mesma obrigação. A diferença é a rede de credenciados e o preço. Um diferencial é que o plano Santa Casa é atendido em todas as Santas Casas e hospitais beneficentes do Estado, porque existe uma rede de filantropia que faz com que uma pessoa do plano da Santa Casa de Sorocaba seja atendida aqui e assim por diante.

MN – Qual a porcentagem de pessoas de outros municípios que buscam atendimento na Santa Casa de Mauá?
HHWF – Santa Casa atende pacientes da Zona Leste de São Paulo, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Santo André, São Caetano do Sul, Suzano, e Mogi das Cruzes. 80% dos nossos atendimentos são de Mauá, e os outros 20% são da região metropolitana.

MN – Comente sobre a reforma que está em andamento, prevista no plano diretor da entidade.
HHWF – Iniciamos a reforma em abril de 2016, fruto de um trabalho de dois anos do desenvolvimento do plano diretor da Santa Casa, que identificou as necessidades que teríamos com o crescimento da população, somada às necessidades do SUS e do nosso plano de saúde. Nós desenvolvemos o plano e percebemos que, como crescemos muito como plano de saúde – em cinco anos passamos de 5.500 vidas para 28 mil -; precisávamos dar atendimento para este público e, principalmente, para o público de fora do município. Por este motivo precisávamos ter um hospital com maior capacidade de atendimento e também de qualidade hoteleira. Estávamos com o Pronto Atendimento saturado, um espaço que era para atender 12 mil pessoas, já passava de 15 mil. Então, partimos daí para desenvolver todo um processo de crescimento; teremos um centro cirúrgico com oito salas – hoje temos quatro – e equipe médica com capacidade para realizar qualquer procedimento. Hoje estamos habilitando essa quarta sala para fazer transplantes e cirurgias cardíacas. Esse plano diretor prevê os próximos dez anos da Santa Casa; prevê o aumento do Pronto Atendimento de 15 para 50 mil pessoas mês, 220 leitos, 80 leitos de retaguarda, para a região; faremos um hospital infantil, aumentaremos de dez para 20 leitos a UTI adulto; de oito para dez a UTI neonatal e mais dez leitos de UTI infantil.

MN – Qual o tempo estimado para o final das obras?
HHWF – O projeto total tem um tempo limite de três anos, a partir de abril passado, para ser entregue. Mas, foi dividido em três etapas: a primeira que envolve o Pronto Atendimento, a área de internação e dez leitos de apartamento, com previsão de entrega em dezembro próximo. Estamos correndo para isso. A segunda etapa envolve a relocação das partes administrativas e a transformação dessas áreas administrativas em áreas sociais de atendimento. E a terceira etapa é o levantamento do prédio de dez andares. De qualquer forma, em três anos estaremos com o projeto completo. Além disso, já estamos com duas unidades externas funcionando – uma policlínica exclusiva para os usuários de nosso plano de saúde e um ambulatório de especialidade geral; até outubro estamos montando novo ambulatório na parte central de Mauá, para atendimento de especialidade e, até dezembro, abriremos um PA e um ambulatório de especialidades no Jardim Zaíra. Então, imaginamos que até dezembro teremos o hospital funcionando parcialmente aumentado, e com quatro unidades externas em funcionamento.

MN – A Santa Casa completou 50 anos no dia 12 de junho. Quais são os planos para o futuro e o balanço da instituição ao longo deste período?
HHWF – Eu não vejo o hospital de hoje, eu enxergo daqui dez anos. Então, todo projeto que está sendo feito é para isso. Pela primeira vez estamos pensando de forma planejada um plano diretor para o hospital. Durante muito tempo tivemos a síndrome de Santa Casa, que é um hospital que está sempre pedindo dinheiro. Hoje, quando falamos em Santa Casa, a primeira imagem que vem é pejorativa. Então, estamos tirando esse complexo dos últimos anos, estamos pensando no futuro.

MN – Houve ou está havendo uma mudança na cultura?
HHWF – Acho que o grande ganho da Santa Casa nestes anos foi primeiro deixar de ter o tal complexo. Fizemos, sim, um trabalho de mudança de cultura, explicando para a equipe médica e administrativa que somos um hospital de qualidade e temos que nos tratar como tal. Nosso hospital era branco e cinza, agora o hospital ganhou vida e ganhou cor. Os apartamentos eram brancos, hoje cada um tem uma pintura e uma decoração diferente, porque o mesmo paciente depois de ter ficado internado quatro dias, pode voltar para uma reinternação e, dessa forma, ele não terá o impacto do ambiente depressivo. Usava-se o branco como sinal de limpeza; porém, ele é depressivo para tratamento médico. Todas essas mudanças foram feitas ao longo destes cinco anos. Queremos ser um hospital de vanguarda, que tem o futuro como espelho. Digo muito nas reuniões que não objetivamos o lucro, como nos outros hospitais. Com isso podemos tratar as pessoas de forma diferente, com amor, carinho, não fazemos diferença entre um paciente do SUS ou de um convênio mais nobre.

MN – Quais são os valores da entidade?
HHWF – Primeiro, a valorização da nossa história. Tente juntar 30 pessoas hoje, para criar uma Santa Casa em algum lugar que ainda não tenha. É impossível. As pessoas não têm mais essa vontade. A ética e o desenvolvimento da gestão de pessoas, ou seja, as pessoas internas têm que ser bem tratadas, também; afinal, não são apenas funcionários. A visão de futuro; a qualidade visando à satisfação do cliente; o desenvolvimento econômico com responsabilidade social. Nossa ideia, hoje, é nos transformarmos em um hospital de referência regional, provavelmente na área de cardiologia e, principalmente, usando energia limpa. Dentro de todo esse projeto temos poços de água de reuso, água pluvial, e energia solar como fonte de energia limpa. Estamos vendo a possibilidade de trazer da Espanha uma usina eólica que não tem hélices, é vibratória, podendo ser montada em cima do prédio do hospital e, com a energia do vento, gerar energia elétrica.

MN – E quais são os desafios da instituição?
HHWF – Aparecer, se mostrar para a sociedade, que há 50 anos vê a Santa Casa da mesma forma. Queremos mostrar para a sociedade regional que a Santa Casa é um hospital de qualidade, que faz todo tipo de cirurgia, com excelente equipe técnica e médica.

MN – Fale sobre sua relação pessoal e profissional com a Santa Casa.
HHWF – Para mim é uma missão, eu me sinto privilegiado por ter convivido com todos aqueles que fundaram a Santa Casa e ainda ter contato com alguns que estão vivos – apenas três. Quantas vezes vi meu pai fazendo empréstimos, como avalista, para pagar o quadro de funcionários e fornecedores da Santa Casa. Mas também nunca vi a Santa Casa não pagá-lo de volta, sempre conseguiu dar a volta por cima, se reerguer e pagar suas contas. Cresci em meio a tudo isso. Vim para cá aos seis anos, com meu pai, até que, aos 18 anos, passei a fazer parte do quadro de irmãos. A partir daí entrei como suplente da Mesa, depois fui secretário, vice-provedor, provedor por 12 anos e, no momento que eu menos esperava, Deus me preparou para este cargo.

MN – Comente sobre a importância da família nesse processo.
HHWF – Minha família me motiva muito. Para mim, família é a base de tudo e onde busco minha energia. Minha esposa faz parte da Mesa Administrativa e da gestão, de forma voluntária, atendendo todas as ocorrências sociais que temos aqui. Passamos 24 horas por dia juntos e conseguimos separar bem as coisas. Aqui, ela faz questão de me tratar como superintendente, mas ela realmente se tornou um braço direito, e isso me dá liberdade de trabalhar na gestão efetiva da instituição.

MN – Até quando e como vê o seu futuro dentro da entidade?
HHWF – Não sou eterno e todos sabemos disso. Portanto, preciso criar e formar uma gestão independente de mim. Minha ideia original é permanecer por mais seis anos, terminar o projeto da reforma, implementar as unidades externas, arredondar todo o funcionamento da entidade e, aí sim, passar o comando para alguém que venha com ideias novas e que tenha se preparado para isso. Eu voltaria a fazer parte do quadro de irmãos, e, se me derem oportunidade, fazer parte da Mesa. Não me vejo desligado por completo da Santa Casa e também não me vejo eterno.

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