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Naim Ayub:

o chefe dos mares

Aos 53 anos de idade, Naim Ayub – natural de Ribeirão Pires, no Grande ABC-, tem o emprego dos sonhos de muitas pessoas. Há 29 anos vive em alto-mar trabalhando como animador de navios, e há 22 ocupa o cargo de chefe de animação e diretor de cruzeiros da Costa Cruzeiros e, o mais incrível, é que ele foi o primeiro a ocupar este cargo, no Brasil e na Europa.
Mas, o que lhe garante tanto respeito da tripulação e de milhares de passageiros com quem já teve contato é sua humildade e paixão pelo que faz. Formado em Educação Física pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), ele decidiu embarcar após trabalhar com esportes de alto rendimento e com crianças.
No entanto, Naim alerta os interessados de que o sonho não é para todos, e muitas concessões devem ser feitas nesta área, como, por exemplo, ficar longe da família. “Costumo dizer que se você passar do primeiro mês você fica para sempre, porque muitos não aguentam tantas mudanças, em tão pouco tempo”, descreve.
Hoje ele comanda uma equipe de cem pessoas entre artistas e animadores, e revela que esta é a parte difícil do trabalho, pelo qual é apaixonado, e deixa claramente transparecer essa paixão para todos que o cercam.

Por Mariana Fanti

MercNews – Como você ingressou nesta área?
Naim Ayub – Me convidaram para ser chefe de animação infantil na equipe da empresa Costa Cruzeiros, em 1987, época em que os navios ainda não tinham animação. Isso aconteceu no Eugenio C e havia apenas uma equipe para trabalhar com crianças. O trabalho deu certo e Genova, sede da empresa, quis implantar a mesma atividade na Europa, ocasião em que seus diretores contrataram essa companhia brasileira para montar a primeira equipe de animadores. Só tinha um problema: não havia animadores que falavam idiomas, pelo que o dono da companhia brasileira resolveu treinar quatro pessoas que falavam línguas, e mandar para a Europa, o que não deu certo. Afora isso, precisavam de alguém com experiência para coordenar os quatro animadores e foi assim que me deram essa oportunidade. Dessa forma fui o primeiro chefe de animação de navios na Europa, trabalhando pela companhia brasileira. Esse trabalho perdurou por dois anos e depois disso Genova decidiu montar equipes próprias, mas, eram equipes, sem chefe animador.

MN – E quando você se tornou chefe?
NA – No ano seguinte, mas, antes disso quiseram testar o cargo de chefe e para isto me colocaram em um navio e um artista em outro; com ele não deu certo, mas, comigo deu. Assim, fui o primeiro chefe de animação oficial da Costa Cruzeiros. Tempos depois passei a diretor de Cruzeiro, cargo que ocupo há 22 anos.

MN – Em quantas línguas você é fluente?
NA – Todos os idiomas que falo, aprendi a bordo, exceto o português, é claro. Hoje falo cinco línguas e ‘meia’: italiano, inglês, espanhol, francês, português; no alemão consigo me virar, além de grego e russo, que conheço algumas frases-chaves.

MN – Como é o dia a dia de um diretor de Cruzeiro?
NA – O navio não para nunca. Tudo depende do itinerário, tamanho do navio, perfil de hóspede, etc. Ainda hoje coloco muito meu coração no meu trabalho, porque gosto do que faço, gosto de pessoas e, principalmente, gosto desse contato. Minha falha é que não consigo tirar uma foto, sem fazer careta. Acordo sempre cedo, porque às 9 horas já tenho que estar atuando. Mas, geralmente, durmo lá pelas duas da manhã.

MN – Entre tantas funções que seu cargo abrange, qual (ou quais) você considera mais importante?
NA – Minha responsabilidade no navio é o entretenimento e a comunicação. No entanto, para mim, o desembarque é a parte mais importante, já que sempre acontecem imprevistos, alguns até inconvenientes. Então, faço questão de sempre estar presente nos desembarques. Hoje, minha equipe é composta por cem pessoas, entre animadores, artistas, músicos, etc.

MN – É possível ter vida pessoal neste ramo?
NA – Fui casado três vezes, uma das minhas ex-esposas era de bordo, mas passou para o mesmo cargo que eu ocupo. O fato é que passamos a não trabalhar mais juntos, o que inviabilizou tudo, porque quando eu estava no mar, ela estava em terra, e vice-versa. As outras duas ficavam em terra e fica difícil conciliar uma vida conjugal, estando em casa só a cada oito meses. Nesse contexto, também ficou impossível ter filhos. Normalmente era assim, ficávamos oito meses a bordo.

MN – Com a nova legislação, no Brasil, essa rotina mudou?
NA – Sim, com a nova legislação trabalhista, agora fico sete meses em alto-mar e quatro em casa. Mas, quando volto para minha casa, em Ribeirão Pires, gosto de dar atenção aos meus três cachorros e gato, que estão sob os cuidados de uma pessoa, enquanto fico fora. Porém, viver dentro de um escritório não é meu objetivo de vida. Então, penso em ficar nessa vida mais dois anos, no máximo.

MN – Você já deve ter vivenciado uma série de histórias engraçadas e estranhas. Conte uma.
NA – Verdade são muitas, mesmo. Certa vez, três italianas passaram por uma situação engraçada na última noite, no navio. Uma delas voltou para a cabine, mas não conseguiu abrir a porta. Finalmente ela deu um jeito de entrar e já foi logo tirando a roupa para tomar banho; porém, quando entrou no banheiro percebeu que estava na cabine errada, e por isso a chave não funcionava na porta. Ela e as amigas me contaram essa história no dia seguinte, rindo desesperadamente do fato de a amiga estar nua, no banheiro de uma cabine que não era dela, e com medo de o dono chegar.

MN – Quais recomendações deixaria para quem pretende trabalhar nesta área?
NA – É um ramo apaixonante, mas é pesado, tanto pelas horas de trabalho, quanto por ficar longe da família, trancado. Sempre falo: “se você passar do primeiro mês, você fica para sempre”, porque muitos não aguentam tantas mudanças, em tão pouco tempo. Às vezes é tanta correria, que nem lembramos que estamos em alto-mar. O bom é que hoje em dia, as coisas mudaram. Os navios são maiores, recebemos em dólar, para entrar na Companhia Costa, os candidatos precisam ter certificações, Curso Básico de Segurança de Navio, além de inglês fluente.

MN – Você gostaria de deixar uma mensagem para os leitores?
NA – Sim, quero deixar um forte abraço para os amigos do Grande ABC, que frequentemente encontro nos navios, e especialmente ao povo de Ribeirão Pires, cidade que eu amo.

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