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Ednalva Barros dos Reis Siqueira

À primeira vista, até pelo sorriso fácil, afora a leveza e espontaneidade dos gestos enquanto se submetia à sessão de fotos, ela poderia até ser confundida com uma modelo para lá de acostumada às lentes fotográficas. Mas só à primeira vista, porque logo em seguida ela começa a falar, conseguindo literalmente arregalar os olhos do interlocutor. Explica-se: estamos falando da médica dermatologista, e além, especialista e referência nacional no tratamento de doenças autoimunes, com destaque para a psoríase, doença inflamatória crônica até hoje muito maltratada no País, assombrando especialmente os que dela sofrem.
Dra. Ednalva Barros dos Reis Siqueira conta que há 15 anos, quando começaram a chegar ao Brasil os primeiros estudos e medicamentos à base da clonagem de células humanas, ela se apaixonou ainda mais pela especialidade, tendo inclusive integrado o primeiro grupo brasileiro a ir para a Alemanha por conta desses estudos, país detentor das mais avançadas pesquisas sobre o assunto.
Nascida em São Paulo, Ednalva estudou na Faculdade de Medicina do ABC, onde se formou em 2000 e acabou ficando por aqui, trabalhando em Santo André e São Bernardo do Campo. Mãe de Rebeca, 21 anos, e casada com o publicitário Fábio Barros, a médica tem uma rotina profissional bastante puxada, que mescla com a vida familiar, os cuidados com seus cinco pets de estimação e um sonho que, um dia, pretende realizar: fundar uma organização totalmente voltada aos cuidados com pacientes acometidos de doenças autoimunes, especialmente psoríase, garantindo a todos tratamento gratuito com o uso de imunobiológicos, medicamentos até hoje de altíssimo custo.

Da redação

Ednalva conta que, para começar, as afecções cutâneas da psoríase são só a ponta do iceberg desta doença inflamatória que é seríssima, que pode se manifestar em qualquer época da vida e que, até há alguns anos, ninguém falava em seu tratamento, com imunobiológicos; os tratamentos eram feitos com corticoides, com quimioterápicos, que acabavam levando à piora da resposta, afora efeitos colaterais graves, em alguns pacientes. “Há uns 15 anos começaram a chegar ao Brasil os primeiros tratamentos com imunobiológicos, medicamentos produzidos à base de clonagem de células humanas. É como se as células entrassem no organismo doente e o ensinasse a seu favor, porque, como as doenças são autoimunes, o seu próprio estado imunológico, que teria que te defender, te agride. O medicamento coloca o organismo no eixo, de novo, e praticamente não tem contraindicação”, diz ela, explicando que até gestantes nos três primeiros meses de gravidez podem tomar o remédio, sem qualquer prejuízo para o bebê. “São medicamentos seguros”, reforça.
Segundo ela, há hoje no Brasil cinco tipos de medicamentos para psoríase e artrite psoriásica, de indústrias diferentes, todos de altíssimo custo. “E nós conseguimos todos gratuitamente pelo governo, independente de a pessoa ter ou não convênio. A minha linha é encaminhar os pacientes para que recebam o medicamento gratuito, público”, informa.
Falando sobre sua trajetória profissional, Ednalva conta que, a exemplo de outros profissionais da área, no início a sua especialidade era da estética para fugir um pouco dos convênios – ainda atende neste segmento -, e uma forma de ter liquidez na sua receita. “Mas, os pacientes doentes ficaram um pouco esquecidos, já que são poucos os médicos dermatologistas que tratam esse tipo de doença. Quando começaram os estudos no Brasil, eu fui estudar na Alemanha e, desde então, faço atualização constante, com a participação em cursos e congressos, especialmente internacionais, no Centro Mundial Europeu; sou sempre convidada a participar”.
Por outro lado, conforme explica, o Brasil também oferece muito material humano. “Havia muitos casos de psoríase, associados a doenças infecciosas crônicas, como hanseníase, fogo selvagem, tuberculose principalmente, entre tantas outras, que não existiam na Europa e nós não sabíamos se poderíamos usar o mesmo protocolo usado na psoríase, sem prejudicar o paciente. A primeira vez que levamos esses estudos, um dos médicos conferencistas se assustou e não conseguiu nos dar uma devolutiva, em termos do tratamento para essas outras doenças, com a nova tecnologia. Hoje, o Brasil não só usa tal tecnologia, como é bastante respeitado no tratamento da psoríase e outras doenças autoimunes”.

Como tudo começou
Segundo ela, pacientes iam aos consultórios dermatológicos que, normalmente, lhe encaminhavam pacientes. “A demanda era muito alta e eu abraçava os casos dessas pessoas, mas era muito triste. Só para você ter uma ideia, o corticoide, por exemplo, era diretamente aplicado na lesão. O paciente chorava e eu chorava junto”, diz ela, lembrando que quando esse medicamento chegou ao País começou a tratar sua irmã que tem uma doença autoimune, mas não psoríase.
Aliás, Ednalva faz questão de ressaltar que a psoríase é uma doença que se cria contra si mesmo. “Não se pega de ninguém, não se passa para ninguém. É como se suas células entendessem que você tem alguma coisa, que não é própria do seu organismo”, ensina a médica, assustando um pouquinho mais. “Embora seja mesmo muito triste, é bom deixar claro, também, que o problema cutâneo, como já falei, é só a ponta do iceberg. A psoríase é uma doença que com o passar do tempo, se não houver tratamento, vai atingindo a parte neurológica, a parte vascular, as articulações – a conhecida artrite psoriásica -; pode deixar lesões definitivas, mutilantes, pode chegar até ao coração, causar senilidade precoce, etc etc. É triste porque acaba afetando a vida familiar, social e profissional da pessoa, que não raro se entrega à sua ‘sina’, chegando eventualmente até ao suicídio”.

O que detona e a boa notícia
Mas, e a causa? “Lembre-se que é o seu sistema de defesa que te agride. Pode aparecer em qualquer época da vida, mas é preciso haver predisposição para isso. Há um gatilho geralmente emocional, também. A doença não é emocional, mas, o gatilho, é. E, para esses tratamentos, se a pessoa não tiver um suporte psicológico, especialmente familiar, é bem difícil de acompanhá-la, isso porque não há aceitação nem dela própria e nem da sociedade. Enfim, para deixar bem claro, psoríase não é só uma doença de pele”.
Agora, a boa notícia. Com o tratamento por meio dos imunobiológicos, – sempre injetáveis -, ela zera em muitos casos! “É como se fosse uma vacina – que, como alguns medicamentos, pode ser aplicada em casa, com os devidos cuidados de armazenamento – e em consultório especializado. A outra boa notícia é que consegue-se tratamento gratuito, pago pelo Governo. A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo arca com esses custos”.

A rotina profissional x pessoal
Coordenadora do Centro Médico de uma multinacional, onde trabalha meio período durante a semana, Ednalva também atende em cinco endereços de consultórios em Santo André e São Bernardo do Campo, dedicando 10% do seu tempo a tratamentos de estética e, o restante dele, tratando pacientes com doenças autoimunes.
E é essa correria diária que encontra guarida em casa, rodeada pelos cinco cachorros, seus “filhos de coração”, sem falar do marido, um caso de amor à primeira vista entre médico e paciente que resultou em casamento pouco tempo depois, e da filha, quartanista de Arquitetura, que cursa na Universidade Mackenzie.
Grande admirador da esposa, Fábio, que é especialista em Marketing e Novos Negócios e comanda a BRS Participações, em São Bernardo do Campo, exalta o empenho e dedicação da esposa, nos cuidados com seus pacientes. “Embora não saiba quantas pessoas já atendeu ao longo de sua trajetória, isso a partir de 2005, ano em que começou a atender essa especialidade, ela já chegou a ter mais pacientes que alguns grandes centros, e já conseguia o remédio – importado – gratuitamente, sob ordem judicial. Se puder defini-la, diria que Ednalva não só é a esposa perfeita como, profissionalmente, é uma ‘fera’”, completa.

Otimismo, sempre
Tendo hoje como maior desafio conseguir trabalhar com os convênios em geral por conta de regras e burocracias, e com o sonho de garantir tratamento gratuito da psoríase para tantos quantos dele precisarem, Ednalva emana otimismo e alegria, apesar do quadro, em princípio, sombrio. “Eu quero deixar um recado para os leitores. As pessoas que têm psoríase devem ter em mente que há tratamento, sim, com resultados muito eficazes. Se for o caso, procurem um dermatologista especializado, esqueçam tratamentos alternativos, não se culpem ou envergonhem por ter a doença, que, como já disse, é inflamatória crônica e não de pele. Se tratada no início, simples comprimidos ingeridos de acordo com prescrição médica, certamente asseguram o bem-estar ao paciente; em casos mais avançados, quando o tratamento é via injeção, demora mais um pouco. Mas, em um caso ou outro, o fato é que a vida volta ao normal, a partir do momento que as pessoas começam a se tratar no todo, e não só mais a pele. E podem acreditar, porque dá certo”.

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