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Paulo Serra e Ana Carolina Serra

Eles são jovens, competentes, comprometidos e promissores. À frente da Prefeitura Municipal de Santo André, ele prefeito, ela primeira-dama – título que não gosta de usar – Paulo Henrique Pinto Serra e Ana Carolina Rossi Barreto Serra dividem desde janeiro último as responsabilidades de gerir a cidade, com a missão de fazê-la voltar a ser referência no Brasil, como o foi, na década de 1990. Ambos andreenses, Paulo é economista, bacharel em Direito e professor universitário, enquanto Ana Carolina é advogada, mestre em Direito das Relações Sociais, professora de graduação e de pós-graduação, além de ser apaixonada por cachorros.
Casados há quase quatro anos e pais de Maria Carolina, que logo completa dois anos, juntos eles dividem mais do que uma vida a dois: dividem também os anseios e projetos para uma ‘nova’ Santo André. Em meio a uma rotina exaustiva de trabalho à frente da Prefeitura, eles hoje, tentam adequar a nova rotina ao dia a dia do casal, levando a tarefa com muito trabalho e determinação, mas ainda com talento, força de vontade e fé em Deus, aliás, a marca deste casal.
Completando cem dias de governo, neste 10 de abril, Paulo Serra e Ana Carolina falam a MercNews sobre os desafios, metas e expectativas para a nova fase que se inicia agora.

Por Mariana Fanti

Paulo Serra é andreense da gema, membro da segunda geração familiar. Cresceu, estudou em Santo André, é apaixonado pela cidade e conta que o gosto pela vida pública, em tese, veio do avô paterno que sempre teve uma atuação social muito forte na cidade. Já seu pai, Paulo Serra, foi candidato a vereador em 1996, ocupando lugar de primeiro suplente. Paulinho, como é chamado pelos amigos, credita à iniciativa do pai a semente responsável por despertar a ideia de converter o trabalho social desempenhado há décadas pela família, em um trabalho ligado à política.
Segundo ele, ainda cursava Economia na FEA-USP, em 2002, quando um grupo de jovens da cidade, ainda impactado pela trágica morte do então prefeito Celso Daniel, se mobilizou para lançar uma candidatura a vereador, e Paulo foi o nome escolhido entre os participantes. Dois anos depois ele ganhou sua primeira eleição, ainda que na 20ª posição. “Foi assim que eu comecei”, diz Paulo, que quatro anos depois, em 2008, foi reeleito o vereador mais votado da cidade. “Vimos que o trabalho estava dando certo, com o reconhecimento das pessoas, que queriam voltar a acreditar em um projeto novo”, diz ele, lembrando que sua trajetória política é marcada por dois mandatos como vereador e dois anos como secretário de Obras. “Depois de oito anos de Legislativo e depois como secretário de Obras, vejo que essa experiência foi fundamental; ocupando agora o cargo de prefeito, sei que conhecer o funcionamento do Executivo, aprender o que fazer e principalmente, o que não fazer, é essencial para uma boa gestão. Essas duas experiências somaram muito e me deixaram muito mais seguro para esse desafio que temos à frente, hoje”.

Cem dias de governo
Completando agora cem dias de governo, o prefeito fala sobre a transformação pela qual está passando a cidade e, principalmente, a percepção das pessoas, e isso porque desde que assumiu a Prefeitura, e junto com programas e ações que já colocou em prática, o objetivo tem sido claro: cortar gastos e reduzir o tamanho da máquina. “Nós reduzimos em 40% o número de cargos comissionados, revisamos contratos, paramos de gastar dinheiro com Carnaval, vendemos 141 carros oficiais, e tudo isso trouxe uma economia de R$ 30 milhões”, afirma, adiantando, no entanto, que estas iniciativas ainda não foram suficientes para liquidar a dívida – R$ 300 milhões -, mas têm contribuído para uma mudança de percepção dos munícipes com relação à classe política e, especialmente, com relação à gestão da cidade. “Estamos muito mais perto das pessoas, elas voltaram a acreditar que a gestão pública pode mudar a vida delas, para melhor. Esse é o nosso principal desafio, nestes100 dias, de poder falar, ‘olha, a Prefeitura voltou a funcionar’. Voltamos a pagar as contas em dia, tiramos programas do papel. As pessoas estão vendo que está funcionando. É claro que tem muita coisa a ser feita, mas a cidade está criando novas expectativas e quando a gente pega uma pesquisa de opinião e vê que 75% dos munícipes já acham que o nosso governo vai ser melhor que os últimos, aí vemos que essa primeira missão está sendo cumprida. E aí, lógico, nos dá uma responsabilidade maior ainda. Mas, como não tenho medo de desafios, tenho certeza que vamos dar conta do recado e Santo André vai voltar a ser orgulho para as pessoas”.
De acordo com o prefeito, os precatórios voltaram a ser pagos, ainda que longe do ideal, assim como as dívidas, que foram congeladas por 90 dias. “O fato é que a situação financeira da cidade é a pior da história. Herdamos 300 milhões de dívidas diretas, mais 1.7 bilhão de precatórios. São dois bilhões de dívidas. Dívidas não negociáveis, no sentido de sua natureza. São dividas reais, consolidadas. O que estamos vendo agora é a forma de pagar, descontos, abatimentos, mas as dívidas existem. Não há o que fazer. Já a dívida com a Sabesp dá para se discutir, por exemplo. Mas, dois bilhões é a nossa dívida. Não tem o que fazer: 300 milhões para o dia a dia da cidade, que é essa que ficou congelada por 90 dias e 1.7 bi que já voltamos a pagar.

Promessas de campanha
Acabar com a questão da falta de água é uma delas, já que, segundo consta, é um problema crônico, na cidade. “Mas, o que enfrentamos hoje, é um novo problema: pode parecer até contrassenso, mas, o excesso de água na tubulação aumentou muito a perda e fez com que tivéssemos que executar obras que não estavam previstas, micro intervenções, que são a Operação Caça-Vazamentos. O que verificamos é que a rede, muito antiga, não sustenta mais o volume que a cidade precisa; então, conseguimos resolver o problema do volume e aí surgiu outro, que são os vazamentos. Por conta disso, alguns bairros – pontuais – ainda se ressentem com a falta de água, porque a rede simplesmente não aguentou e nós tivemos que fechar a rede e fazer obras. Foram mais de 120 intervenções; vamos chegar a 200 e o plano inicial era de 40. A falta de investimentos nos últimos anos, na rede de distribuição de água, contribuiu muito com essa situação. Cidades como a nossa perdem de 20 a 30% de água. Santo André está perdendo algo em torno de 48%, ou seja, perde quase metade da água distribuída e o Semasa, hoje, não tem equipe suficiente para fazer todo esse trabalho de manutenção. De uma forma geral, a cidade precisa recuperar sua capacidade de fiscalização e de manutenção e esses são dois pontos que têm norteado nosso trabalho, desde o início; não ações de gestão, mas de operação: focamos neste início de governo em manutenção e fiscalização”.
Para o prefeito, assim como o da água, a operação sono tranquilo, por exemplo, que é o combate à poluição sonora – coordenada pela Secretaria da Segurança – foi um compromisso de campanha tirado do papel nos primeiros dias, integrando Polícia Civil, Polícia Militar e Guarda. “Criamos na primeira semana de governo e está funcionando muito bem, já que em três meses conseguimos fazer quase 1000 autuações. As pessoas precisam voltar a perceber que tem lei nesta cidade e as que fugirem às regras, não são mais beneficiadas. Do outro lado, estimular quem anda dentro da lei, que é o principal. Precisamos voltar a fazer a cidade crescer, gerar empregos e, como vamos fazer isso se não seguirmos regras? Isso vale para comércio, indústria, para a própria cidade”.

O dia a dia
Prefeito em tempo integral, Paulo diz que parou de lecionar – quem sabe voltando a fazê-lo no futuro -, frisando que hoje divide seu tempo entre a Prefeitura e a família, família e Prefeitura, “incluindo aí o Theodoro, nosso cão. Não vou abrir mão e acho que ninguém deveria fazer isso. Maria Carolina vai fazer dois anos, ocupa e tem que ocupar um espaço importante e fundamental”, diz ele, aproveitando para elogiar o trabalho da esposa, à frente do Fundo Municipal de Solidariedade. “Ana é extremamente focada e fará um trabalho que vai render bons frutos para a cidade, já que não está limitada ao papel tradicional de primeira-dama, que ela nem gosta. Acho que está aí a diferença. Entendeu muito bem como funciona uma gestão, sabe que precisa buscar índices, buscar eficácia, ter eficiência e vai perseguir isso. Alguns projetos ligados à pasta dela já estão saindo do papel. Aliás, na Prefeitura ela é voluntária, não recebe salário, para ela essa é uma causa. Ela vai conseguir dar conta de forma brilhante”, resume.

Companheira até na vida política
E, quem é ela? De cara, nada de primeira-dama, título que não gosta de usar. Assim, desde o primeiro dia de gestão do marido, Ana Carolina Rossi Barreto Serra preferiu deixar o rótulo de lado, e não se limitar ao ‘quadradismo’ embutido no papel: preferiu criar o Núcleo de Inovação Social para as atividades ficarem mais amplas, do que se ater tão somente ao Fundo Municipal de Solidariedade, que está inativo. “Estou trabalhando para a reabertura dele; também tenho o objetivo de reabrir o Banco de Alimentos, que infelizmente teve as atividades encerradas no final do ano passado; então, estas são prioridades deste ano”.
Segundo Ana Carolina, infelizmente o Fundo não tem sede. “Estamos procurando uma sede e, paralelamente, estou fazendo reuniões com o governo do Estado para podermos no cadastrar e celebrar novos convênios”, diz ela, explicando que hoje, infelizmente, muitas cidades do Estado deixaram as atividades do Fundo, de lado. Então, não somente eu, de Santo André, mas primeiras-damas de outras cidades da região enfrentam as mesmas dificuldades. Por isso, tivemos uma reunião no Palácio dos Bandeirantes e depois disso, como primeira iniciativa, trouxemos para o Grande ABC essa reunião, para tirarmos dúvidas que são semelhantes, características à nossa região. Particularmente, só vou começar a colocar esse trabalho em prática quando tiver um espaço adequado. Temos dificuldade de orçamento, porque a Prefeitura tem esse déficit e, consequentemente, o Fundo Municipal de Solidariedade também não tem orçamento próprio, pré-definido. Então, primeiro preciso me reestruturar e é nisso que estou trabalhando agora, pesado: procurando sede, reorganizando o Fundo, o Banco de Alimentos, em paralelo e, a partir daí, a gente tem várias ideias novas para trabalhar em conjunto com a sociedade. Por isso, o Núcleo de Inovação Social, até para nossa atividade não ficar restrita somente ao Fundo Municipal. Tudo isso para conseguirmos fazer parcerias com a iniciativa privada, trazer a sociedade civil organizada e trazer o próprio munícipe. Então, na realidade, o Núcleo de Inovação Social tem programas e projetos; programas, que eu gostaria e pretendo que sejam definitivos, ou seja, não tenham tempo para acabar, como, por exemplo, postos de coleta para doação de brinquedos, alimentos, agasalhos – não só no inverno – e outras. Eu gostaria que isso fosse transformado em programa, programa do município e não só um projeto, com início, meio e fim, ocasional”.
Para Ana, a meta principal – e em tese o seu orgulho – é conseguir colocar em prática o programa Mamãe em Dia, o mais difícil deles, e sua prioridade. “É um programa que vai ser administrado entre Secretarias, englobando as áreas da Saúde, Educação, Desenvolvimento Econômico e Social e Cidadania e Assistência. É um projeto nosso, que visa a cuidar da mãe, a partir do momento da concepção, até o primeiro ano de vida do bebê. Isso tem a ver com o programa Criança Feliz, do Governo Federal, que cuida das crianças até os seis anos de idade. O programa Mamãe em Dia vai um pouquinho além: vai desde o cuidado da gestante até o primeiro ano de vida e, a partir daí, a gente entrega essa criança para o Programa Criança Feliz. Então, são campanhas de conscientização para evitar a gravidez indesejada; depois, se uma vez concebida a criança, conscientizar da importância do pré-natal e do aleitamento materno; da importância desta mãe que pode vir a doar leite para ajudar o Banco de Leite da Cidade, além dos cuidados básicos na primeira infância. Então, é um trabalho em conjunto, de grande envergadura”, resume.
Tendo como maior desafio o Banco de Alimentos, Mamãe em Dia, o Fundo Municipal de Solidariedade e os programas do Núcleo de Inovação, Ana ainda destaca outros. “Após a maternidade percebi a importância de resgatar cantigas, por exemplo, considerando que a educação musical é tão importante quanto a alfabetização”. A partir daí, Ana elaborou um projeto visando a aumentar o contato das crianças com a Orquestra Sinfônica de Santo André – OSSA. “Tenho conversado com o maestro Abel Rocha a respeito disso, de levar a OSSA para equipamentos municipais, e despertar nas crianças o gosto pela música. Por isso eu falo que são projetos que extrapolam o Fundo Municipal de Solidariedade, e a criação do Núcleo de Inovação Social, que ainda depende de reforma administrativa para ser aprovada, é essencial. “Mas, são todas essas várias ideias que a gente quer colocar em prática e vamos trabalhando para conseguir, sempre estabelecendo prioridades”.
Nesses primeiros cem dias do governo, Ana ressalta muito trabalho, ações de cuidados com a cidade, e esforço por conta do orçamento extremamente restrito. “A gente sente a necessidade de um envolvimento maior da população com o cuidado da cidade, não tão somente cobrar, mas participar, fiscalizar sem dúvida, mas, também, de cuidar”. Ana acredita no resgate do conceito de que o patrimônio público é um patrimônio de todos, portanto precisa-se cuidar dele. “O que mais se ouve hoje em dia é: ‘o governo tem que fazer’, mas, o respeito ao próprio público é essencial”, destaca.
A rotina do dia a dia…
Falando de sua rotina, ela ri, explicando que não tem rotina. “O dia a dia é baseado na agenda. Hoje, as prioridades são a Maria, a Prefeitura e as aulas. Assim, no dia a dia, a pergunta é: ‘o que é prioridade hoje, a prioridade do dia? Só sei que preciso estar bem para poder cuidar dos outros e também dar atenção a todos os programas. Então, não há rotina. Se minha prioridade for ir ao mercado logo pela manhã, é o que eu vou fazer. Minha prioridade, hoje, é a prioridade”.

… e a da Família
Para o prefeito e a esposa, o que antes era passeio da família, e hoje se tornou hobby, é passear nos parques da cidade, com a bebê. “Isto porque estou sempre mantendo o olhar crítico de gestor”, diz Paulo, explicando que não dá para dissociar uma coisa da outra. “Este ano conseguimos ir uma vez ao cinema, jantar nenhum, não sobra tempo, mas não reclamamos. Estamos tentando fazer do limão uma limonada”, diverte-se Ana.
No mais, Paulo conta que sai da Prefeitura e passa na padaria para comprar pão, por exemplo. “Não tenho que mudar minha rotina. Pretendo continuar com minha vida na cidade do jeito que sempre foi, sendo amigo dos amigos, fazendo mercado no domingo à noite, quando dá. Já na Prefeitura, e completando agora 100 dias de administração, estou determinado a fazer a melhor gestão da história da cidade; as dificuldades são enormes, imensas, mas possíveis de serem vencidas. E serão, mas com muito trabalho e muita determinação. Não tem escapatória. Trabalho e determinação são fatores que superam todos os outros”.

 

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